Sigma, nome artístico de Vladimiro Sérgio Hitilaval Val Santos, é um rapper angolano, nascido em Luanda, no dia 10 de setembro de 1988. Solteiro, cresceu num ambiente familiar onde a música sempre esteve presente e teve contacto, desde cedo, com uma diversidade sonora que moldaria a sua identidade artística.
Filho de Hitilaval Val Santos e Suzana Jacinto, foi exposto ainda na infância a vários estilos musicais que iam do semba e kizomba às músicas cabo-verdianas, congolesas, brasileiras, blues americano, sons das Antilhas como Kassav, reggae jamaicano com Bob Marley, além de bandas europeias marcantes da época. A mãe, Suzana Jacinto, cantava em festas de quintal, e embora não tenha seguido carreira, deixou-lhe uma forte ligação emocional à música.
Durante a adolescência, descobre o hip-hop e nasce o que descreve como “o bichinho do rap”. O seu percurso começa pelo beatbox, antes mesmo de rimar ou escrever letras, e só mais tarde, por volta dos 14 ou 15 anos, passa ao freestyle e à composição. As suas principais influências incluem nomes internacionais como Nas, KRS-One, 2Pac, Jay-Z, Mobb Deep, The Notorious B.I.G. e Fugees; da cena lusófona, Dealema, Sam The Kid, Boss AC e Black Company; do Brasil, Gabriel o Pensador e Racionais MC’s; e de Angola, referências como SSP, Filhos da Ala Este, Pobres Sem Culpa, Movimento K, Kiquel Vi e Mistykal Minds.
A sua estreia em estúdio acontece no início dos anos 2000, incentivado pelo amigo Zandi, que já tinha alguma experiência musical e com quem formou o grupo VZ Company. Juntos gravaram a música “Traição”, lançada entre 2004 ou 2005, com participação da artista Nucha. Antes disso, Sigma já escrevia letras próprias, sendo “Inferno Azul” a sua primeira composição, gravada apenas anos mais tarde.
Sigma iniciou o seu percurso na Lab Track, label fundada em parceria com o produtor Dr. Kivox. No entanto, a permanência na label tornou‑se limitada quando o C.O. se mudou para o Brasil para estudar, onde permaneceu cerca de oito anos. Apesar da distância, a colaboração entre ambos manteve‑se ativa: Kivox enviava instrumentais pela internet, Sigma gravava em Angola, e o processo criativo seguia num fluxo contínuo, mesmo separados fisicamente.
Em 2014, enquanto aguardava o regresso de Dr. Kivox ao país e sem nunca ter formalizado a saída da Lab Track — onde eram apenas os dois — Sigma integrou a L.P. do Sobrevivente 419, uma label que reunia vários artistas, entre eles Binário, Legionário, Apelação (Último Gajo a Morrer), Tatu MC, Nell Jeter, Corta Corrente, entre outros. Permaneceu nesse coletivo até 2023, ano em que decidiu encerrar esse capítulo.
Com o fim do grupo VZ Company, motivado por caminhos de vida distintos — Zandi ingressou na polícia e afastou‑se da música — Sigma seguiu a carreira a solo, mantendo uma parceria criativa sólida com Dr. Kivox. Dessa união nasceu a Lab Track, estrutura que acompanhou o seu percurso artístico durante vários anos, mesmo nos períodos de colaboração à distância.
Atualmente, Sigma segue o seu caminho de forma independente, sem label associada, embora convites para integrar novas estruturas não lhe faltem. Esta fase marca um momento de autonomia artística, maturidade criativa e afirmação pessoal no panorama musical.
A profissionalização da carreira ocorre por volta de 2009 ou 2010, quando é remunerado pela primeira vez numa atuação ligada a um concurso radiofónico, resultado de um concurso no programa do Miguel Neto, que culminou numa apresentação na Embaixada dos Estados Unidos em Angola. A partir daí, consolida-se como artista, com presença regular em palcos e meios de comunicação. A música “Traição” ganha grande destaque, com forte rotação nas principais rádios nacionais durante vários anos.
Ao longo da carreira, viveu momentos marcantes, tanto positivos quanto desafiadores. Entre os episódios mais curiosos, recorda um show na Samba em que uma música, crítica às mulheres, gerou uma reação intensa de duas espectadoras, quase resultando em agressão. No final, tudo acabou em risos, fotos e troca de contactos. Mas um dos períodos mais difíceis ocorreu em 2020, quando um grave acidente de viação afetou seriamente o seu rosto e a fala, levando-o a temer não voltar a cantar. Após uma recuperação total, regressou à música com ainda mais determinação.
Sobre a própria popularidade, Sigma não se considera “famoso”, mas reconhece que “Traição” foi uma das músicas que mais impulsionou a sua visibilidade, chegando a tocar diariamente nas principais rádios durante vários anos — um feito raro para um artista ligado ao rap underground.
Um dos seus trabalhos mais relevantes é a EP “Força de Expressão”, amplamente elogiada pela crítica pela coerência conceptual e estética — desde a capa à escolha dos beats, sequência das faixas, temas e participações — embora considerada por muitos como subestimada. Apesar de ainda não ter recebido prémios formais, já foi alvo de pequenas homenagens e concertos dedicados à sua trajetória.
No que toca a colaborações, o seu catálogo é extenso e diversificado, somando participações em projetos de diferentes gerações e estilos dentro do rap. A sua postura underground levou-o a recusar convites fora desse universo, privilegiando parcerias que respeitassem a identidade sonora que sempre defendeu. Ainda assim, manteve abertura para trabalhar com músicos responsáveis por refrões, enriquecendo as suas faixas com vozes complementares. Entre os artistas com quem colaborou ao longo da carreira destacam-se Telma Lee, Roxane (R.I.P.), Sacha, Nganje Kelly, Malef, Detergente e Marília, entre outros, consolidando uma rede criativa que atravessa épocas e influências dentro da música urbana angolana.
Um dos pontos altos da carreira, destaca ter conhecido Valdemar Bastos, que o incentivou a não desistir, e ter convivido com nomes como Paulo Flores, Ângelo Boss, Dalú Roger, Jeff Brown, Mamborró, Dom Samú, Walter Ananás e o seu “kota” Wiza (R.I.P.). Outro momento marcante foi quando anunciou ao vivo, no programa de Luís Candeia, que tinha vendido a EP mais cara de Angola, a 100.000 Kz por CD. Também recorda com carinho um show no Elinga Teatro, onde expatriados europeus — que nem falavam português — vibraram intensamente com a sua música.
Sigma permanece ativo, fiel à sua identidade artística e à convicção de que o rap é, acima de tudo, uma voz consciente e uma força de expressão.