Entre a experiência da prisão, o exílio e a escrita, José Eduardo Reis dedicou parte da sua vida a preservar a memória de um dos períodos mais dolorosos da história contemporânea de Angola.
José Eduardo Reis nasceu em Luanda, Angola, a 27 de outubro de 1953. Estudou no Huambo e frequentou a Faculdade de Medicina de Luanda, mas o seu percurso acabaria por ser profundamente marcado pela política e pelos acontecimentos que envolveram o 27 de Maio de 1977.
Defensor da independência de Angola e militante do MPLA, Reis viveu de perto as tensões políticas existentes no período que se seguiu à independência. Em 30 de maio de 1977, poucos dias depois dos acontecimentos de 27 de Maio, foi preso sob a acusação de envolvimento com o chamado “fraccionismo”.
A prisão mudaria para sempre o rumo da sua vida.
Uma prisão sem julgamento
José Reis permaneceu cerca de três anos sob detenção, passando pela cadeia de São Paulo, em Luanda, e posteriormente por um campo de trabalhos forçados que descreve como um verdadeiro campo de concentração.
Durante esse período, relata ter sido vítima de tortura e ter testemunhado o desaparecimento de outros prisioneiros. Segundo o seu testemunho, muitas pessoas que estavam detidas na cadeia de São Paulo desapareceram nos primeiros meses e nunca mais foram vistas.
Um dos episódios mais marcantes que relata ocorreu quando chegou a cavar a própria sepultura, tendo sido salvo pouco antes de ser executado por uma contraordem.
Apesar da gravidade das acusações que lhe foram feitas, José Reis nunca chegou a ser levado a julgamento. Foi libertado em 29 de setembro de 1979, depois de mais de dois anos de prisão.
A experiência deixou marcas profundas, mas também despertou nele uma preocupação que se tornaria central nos anos seguintes: preservar a memória daqueles acontecimentos e dar voz às pessoas que não sobreviveram para contar as suas próprias histórias.
O exílio e uma nova vida em Portugal
Em janeiro de 1980, José Reis deixou Angola e partiu para Portugal, onde passou a viver no exílio. Não regressaria definitivamente ao seu país de origem.
Longe de Angola, carregou consigo as memórias dos anos de prisão e dos acontecimentos que testemunhou. Durante muito tempo, porém, falar sobre o 27 de Maio continuou a ser difícil.
Décadas mais tarde, decidiu romper esse silêncio através da escrita.
Escrever para não esquecer
O seu primeiro livro, “Angola – O 27 de Maio – Memórias de um Sobrevivente”, nasceu precisamente dessa necessidade de testemunhar.
A obra apresenta a experiência pessoal de Reis, mas não se limita ao seu próprio percurso. O autor procura também dar voz a companheiros que desapareceram ou foram vítimas da repressão que se seguiu aos acontecimentos de 27 de Maio.
Para José Reis, escrever significava também deixar um registo para as gerações futuras. O seu testemunho tornou-se, assim, parte de um conjunto crescente de memórias, entrevistas e documentos que procuram contribuir para o estudo daquele período da história angolana.
Um ano depois, publicou “A História por Contar”, obra que considera complementar ao primeiro livro. Se o primeiro se concentra sobretudo nas suas memórias e experiências como sobrevivente, o segundo procura apresentar a sua interpretação sobre as razões que estiveram na origem do 27 de Maio e discutir diferentes versões sobre o que aconteceu.
Uma história ainda por esclarecer
Uma das preocupações presentes no pensamento de José Reis é a dificuldade de reconstruir completamente os acontecimentos de 27 de Maio.
Na sua perspetiva, muitos dos protagonistas diretos morreram e não podem contar o que viveram. Por isso, considera necessário juntar diferentes testemunhos, documentos e relatos para tentar compreender o que realmente aconteceu.
Reis reconhece que existiram movimentações militares e ações de força naquele dia, incluindo a ocupação da Rádio Nacional e a libertação de presos da cadeia de São Paulo. No entanto, questiona algumas das interpretações que apresentam os acontecimentos simplesmente como uma tentativa de golpe de Estado. Na sua leitura, o episódio pode ser analisado sob diferentes conceitos — insurreição, golpe de Estado ou manifestação — e ele próprio considera que a hipótese de uma manifestação destinada a pressionar o poder é a que melhor corresponde à sua interpretação.
Ao mesmo tempo, reconhece que existem aspetos do 27 de Maio que continuam por esclarecer. Para ele, a história ainda não está completamente contada.
O papel de Cuba e da União Soviética
Outro ponto abordado por José Reis é a participação estrangeira nos acontecimentos.
Segundo o seu testemunho, Cuba teve um papel decisivo na repressão que se seguiu ao 27 de Maio, enquanto considera que a atuação soviética foi diferente. Relata inclusive ter visto soviéticos nas instalações onde estava detido, sem que estes interviessem enquanto os cubanos participavam na repressão.
Reis considera que a relação entre Cuba, a União Soviética e os acontecimentos angolanos merece ainda investigação histórica. Para ele, algumas das versões existentes não respondem a todas as perguntas e devem continuar a ser confrontadas com novas fontes.
A luta pela memória
Quatro décadas depois dos acontecimentos, José Reis passou a defender publicamente a necessidade de falar sobre o 27 de Maio sem medo.
Para ele, o silêncio não ajuda a compreender o passado. Pelo contrário, acredita que os sobreviventes devem poder contar aquilo que viveram e que os familiares dos desaparecidos têm o direito de conhecer o destino dos seus entes queridos.
Entre as reivindicações que defende estão a localização dos desaparecidos, a entrega de certidões de óbito às famílias e a responsabilização judicial daqueles que tenham cometido crimes.
José Reis não vê esta posição como uma procura de vingança. A sua defesa é a de que as pessoas acusadas de crimes devem ter direito a um processo judicial, com possibilidade de defesa e julgamento. É precisamente esse direito que, segundo ele, foi negado a si e a muitos dos seus companheiros.
Um testemunho para as próximas gerações
José Reis reconhece que os seus livros, assim como os testemunhos de outros sobreviventes, são apenas uma parte de uma história muito maior. Considera que os historiadores ainda precisam de mais documentos, relatos e fontes para compreender plenamente o que aconteceu.
Por isso, encara os seus livros como uma contribuição para esse trabalho.
Mais do que apresentar-se como dono da verdade, Reis insiste na necessidade de continuar a investigar. A sua própria experiência ensinou-lhe que acontecimentos de tamanha dimensão não podem ser compreendidos através de uma única versão.
Acredita que, com o passar do tempo, mais pessoas estarão dispostas a falar — tanto sobreviventes como pessoas que estiveram do outro lado dos acontecimentos. Para ele, ouvir diferentes vozes é fundamental para reconstruir uma memória coletiva.
Uma vida marcada pela memória
A história de José Eduardo Reis é inseparável da história de Angola no período imediatamente posterior à independência. A sua trajetória passou pela militância política, pela prisão, pela tortura, pelo exílio e, mais tarde, pela escrita.
Mas existe também uma dimensão profundamente humana no seu percurso: a necessidade de compreender o que aconteceu consigo, com os seus companheiros e com tantas famílias que ficaram sem respostas.
Ao publicar as suas memórias, Reis transformou uma experiência pessoal dolorosa num testemunho destinado a sobreviver ao tempo. “Memórias de um Sobrevivente” e “A História por Contar” representam, nesse sentido, mais do que livros sobre o passado. São parte da tentativa de preservar histórias que durante muitos anos permaneceram silenciadas.
A sua luta continua ligada a uma ideia simples: uma sociedade precisa conhecer a sua história para poder compreender o seu presente e evitar que tragédias semelhantes voltem a acontecer.
Editora : Nova Vega
Data na Lea : 11-08-2026
Páginas : 128
Editora : Nova Vega
Data na Lea : 11-08-2026
Páginas : 136