A crescente popularidade do Pix — o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central do Brasil — está a gerar tensões diplomáticas entre Brasília e Washington. Segundo reportagem da Reuters, o governo dos Estados Unidos, liderado pelo Presidente Donald Trump, considera que o modelo brasileiro pode prejudicar a competitividade de empresas norte‑americanas no setor dos pagamentos digitais.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, classificou o Pix como uma “barreira ao comércio”, justificando assim a aplicação de novas tarifas de 25% sobre importações brasileiras. Um responsável da administração Trump afirmou à Reuters que os EUA “não estão a pedir que o Brasil acabe com o Pix”, mas querem evitar que o sistema receba “tratamento especial apenas por ser operado pelo governo”.
Do lado brasileiro, a reação foi imediata. Autoridades afirmam que as críticas norte‑americanas têm como objetivo proteger gigantes como Visa e Mastercard, que há anos dominam o mercado global de pagamentos. Documentos oficiais dos EUA citados pela Reuters alegam que o Pix “pode prejudicar a competitividade de empresas norte‑americanas envolvidas em comércio digital e serviços de pagamento eletrónico”.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo, rejeitou as acusações, classificando-as como “absurdas”. Segundo ele, o Pix não reduziu o uso de cartões; pelo contrário, aumentou o número de pessoas com acesso a serviços financeiros, ao incentivar milhões de brasileiros a abrir contas bancárias. “Seria como dizer que criar saneamento básico prejudica quem vende água em camiões”, ironizou.
Lançado em 2020, o Pix tornou-se rapidamente o método de pagamento dominante no Brasil, ultrapassando transações com cartão em apenas três anos. Hoje, representa mais de metade de todas as operações financeiras no país, com cerca de 170 milhões de utilizadores — cerca de 80% da população. A Reuters destaca que nenhum outro sistema instantâneo, nem mesmo o UPI da Índia ou o FedNow dos EUA, teve uma adoção tão explosiva.
O interesse internacional também cresce. No primeiro semestre deste ano, o Banco Central do Brasil assinou acordos para partilhar informações sobre o Pix com 65 países, incluindo Alemanha, Canadá, África do Sul e Turquia. “O Pix é um modelo para onde todos estão a caminhar”, afirmou Galipolo à Reuters.
Empresas como Visa e Mastercard já alertaram investidores para o risco que sistemas como o Pix representam para os seus negócios. Grupos de lobby norte‑americanos, como o Information Technology Industry Council, pressionam há anos para que o Pix seja regulado de forma “mais neutra”, garantindo igualdade de condições para empresas estrangeiras.
Apesar das críticas, o uso de cartões continua a crescer em números absolutos. No entanto, a sua participação no total de transações caiu: os cartões de crédito passaram de 20% para 15%, e os de débito de 26% para cerca de 10%, segundo dados citados pela Reuters.
O Pix também começa a expandir-se internacionalmente. Já existem soluções privadas que permitem a brasileiros usar Pix em viagens ao exterior, incluindo nos EUA, e turistas podem pagar com Pix em estabelecimentos brasileiros.
A possibilidade de interligar sistemas de pagamentos instantâneos de diferentes países aumenta a preocupação de Washington, especialmente num contexto em que economias emergentes discutem formas de reduzir a dependência do dólar.
A administração Trump também critica o facto de o Banco Central do Brasil ser simultaneamente operador e regulador do Pix. Um relatório do FMI de 2023, citado pela Reuters, compara o modelo brasileiro com os da China e Índia, onde essas funções são separadas.
Para o governo Lula, as críticas norte‑americanas são uma oportunidade para reforçar o apoio ao Pix, que se tornou essencial para pequenos comerciantes e trabalhadores informais. “Ninguém vai mudar o nosso Pix”, escreveu Lula nas redes sociais. “É público, é gratuito e vai continuar assim.”